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Digital, Demasiado Humano?

Li no blog Meio Bit um post muito interessante do biólogo Atila Iamarino, intitulado “Vida Digital e Evolução”. Ele apresenta um histórico a respeito de softwares que procuram criar “seres digitais” para estudar teorias a respeito de evolução.

Basicamente, os softwares colocam seres com comportamento (código) aleatório em ambientes simulados com elementos propícios à evolução. Através dos três fatores: reprodução, variação e competição, definidos por Darwin como as condições para evolução da vida, os seres mais evoluídos prevalecem no ambiente. Até mesmo seres como parasitas ou então com capacidades de imunidade a outros seres surgem!

O software citado como mais novo nesta área, o Avida, tem uma característica interessante.  Ele direciona a evolução de forma que os seres capazes de realizar operações aritméticas sejam melhor sucedidos.

Imaginando todo o potencial de processamento que possuímos hoje em dia, com o qual podemos forçar a evolução desses seres em ritmo acelerado, fico pensando se este não seria o caminho para termos uma inteligência artificial mais próxima à humana. Me parece que seria possível criar seres com um certo nível do indeterminismo dos seres humanos.

Creio que a criação desta inteligência dependeria fortemente do quanto seríamos capazes de fornecer aleatoriedade para que os seres sofram mutações (variação), e da criação de um ambiente que direcione a reprodução e competição para o sucesso de seres com as características que desejamos. Esse ambiente seria como um laboratório para o ambiente real, que poderia ser a interação com seres humanos, por exemplo.

Em “Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral”, Nietizche escreveu:

São somente os homens demasiado ingênuos que podem acreditar que a natureza do homem possa ser transformada em uma natureza puramente lógica; mas se houver graus de aproximação desse alvo, o que não haveria de se perder nesse caminho! Mesmo o homem mais racional precisa outra vez, de tempo em tempo, da natureza, isto é, de sua postura ilógica diante de todas as coisas.

Aqui ele destaca a natureza não determinística do homem (postura ilógica) como algo que não pode ser representado somente através de lógica. Concordo com ele e acredito que dificilmente estes seres digitais poderiam representar a verdadeira natureza do ser humano. Por outro lado, creio que para aplicações específicas, seres criados em ambientes direcionados podem adquirir um certo nível de humanidade.

De qualquer forma, como Nietzche alerta, não devemos nos perder achando que um dia o “Humano, Demasiado Humano” pode ou deveria também ser “Digital, Demasiado Humano”. Deixemos o que somos, para nós.

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